Conheça a História e o Legado dos Maniçobeiros
Explore a trajetória dos trabalhadores nordestinos que migraram para a Serra Branca em busca do látex da maniçoba, formando comunidades únicas e preservando um importante patrimônio cultural.

O solo piauiense tinha aptidão para o cultivo da maniçoba. Na região Sudeste do Piauí, a árvore, em sua forma nativa, estava localizada principalmente nas serras e chapadas, com preferência por partes planas. A produção ocorria de forma extensiva e realizada predatoriamente, porém, em alguns locais havia fazendas de cultivo (OLIVEIRA, 2014). Diante dessa nova alternativa econômica, grupos saem de outros estados da região Nordeste como, Pernambuco, Bahia e Ceará, e de outras cidades piauienses vislumbrando conquistar melhorias socioeconômicas na região de São Raimundo Nonato ficando conhecidos como maniçobeiros. Tratam-se de homens, mulheres e crianças que adentraram na mata sertaneja e iniciaram um trabalho árduo que deixou muitas lembranças.






Conheça a História dos Maniçobeiros
Nesta seção, apresentamos fotos que retratam a vida e a cultura dos trabalhadores nordestinos na Serra Branca.
Antes das atividades de extração da maniçoba a Serra Branca era terra do governo onde as famílias que habitavam o Zabelê e outros povoados usavam para pegar madeira, mel e caçar. Durante o período de seca se viam obrigados a recorrer às tocas – “lugar de índio” – para ficar mais próximo do olho d‟água e aguardar o período de chuva. Investigou-se as concepções de memória, identidade e lugar baseado nas entrevistas de homens e mulheres que trabalharam com a extração do látex da maniçoba, conhecidos como maniçobeiros, entre as décadas de 1940 a 1960 (segunda fase do extrativismo), na região da Serra Branca localizada a oeste do Parque Nacional Serra da Capivara.

Toca do Juazeiro da Serra Branca (1978). FOTO: ACERVO FUMDHAM
Histórias Autênticas da Serra dos Maniçobeiros
Conheça passo a passo a jornada dos maniçobeiros na Serra Branca, desde a migração até a formação das comunidades únicas.
Como os Maniçobeiros Construíram um Legado Duradouro
Este relato detalha como os trabalhadores nordestinos adaptaram suas vidas na região, criando povoados e preservando tradições culturais valiosas.

“Com dez anos de idade minha mãe me levou pra furar maniçoba. Num tinha nem força pra arrancar a casca. Aí fiquemos trabalho com a maniçoba toda vida aqui. Aí eles foram morrendo e eu fiquei, trabalhando na maniçoba pra criar os outros, os mais novo (Francisco Alves, 14/02/2014).“
A Serra Branca se tornou um local povoado com muitas famílias e grupos de trabalhadores. Segundo os entrevistados, além de ser o local de trabalho, era um lugar bem movimentado e divertido, onde eles tinham uma relação familiar e fraternal com o grupo. Uma vez que o acesso era difícil, as regras de convivência eram organizadas por seus componentes. Segundo Godoi (1998), as pessoas que já moravam nas regiões da Serra Branca presavam pela continuidade do grupo, uma das formas de fazer isso era com os casamentos entre pessoas da mesma família, com a inserção da “gente de fora” no período da maniçoba houve, de início, uma resistência, mas depois – principalmente no período aqui estudado – ocorreu a aceitação das pessoas que “pegaram o sistema do lugar”.

Preservando a história e cultura dos maniçobeiros com dedicação.
Este estudo mostra como as famílias maniçobeiras superaram desafios naturais e sociais, mantendo viva sua herança com resiliência.
Morava tudo nas toca, tinha a Toca do Zé Ferreira, tinha a Toca do João Sabino que era a toca que dançava forró até o dia amanhecer. Tinha a Toca do Zé de Amorim (Juazeiro da Serra Branca), subia e tinha a Toca da Laura, Toca da Véia Mulata e a Toca do Joãozinho que lá pro fim… tinha uma láááá em outro lugarzinho que eu esqueço …tudo ali tinha toca (…) (Francisco Alves, 14/02/2014).

O dia do maniçobeiro começava antes mesmo do sol nascer no horizonte, às 4:00h da madrugada ele já estava rente ao fogão preparando um beiju ou feijão para poder se alimentar, deixar comida para os filhos, preparar a tabatinga, pegar sua lega e sair para seu trabalho. O fim de um dia de serviço depende do próprio maniçobeiro, geralmente era por volta das 16:00h.
A fura é curiosa. De manhã, após moer e peneirar o barro, o maniçobeiro enche um embornal ou cumbuco, pega de uma lega e, trajando uma “quitoca” de calça (farrapo), entra carreiro a dentro. Recipiente de barro preso ao cabo lega e posto ao ombro, o seringueiro chega ao pé de maniçoba, abaixa, desce a vasilha com barro e, usando o cavador, perfura um buraco escostadinho ao tronco da árvore, descobre-lhe a “batata”, e aplica-lhe a lega, desenhando um semicírculo ou uma meia-lua. Limpa imediatamente o barreirinho, aplica um punhado de barro, que “forra” o buraco. Ao instante em que acaba de forrar, já o leite, esguichado, derrama-se dentro dele. Tal leite, uma vez ali empoçado, permanece líquido durante 10,15,18 horas, calculadamente, tornando-se, em seguida, coalho sólido e elástico, a tradicional e conhecida lapa. Varia ela consideravelmente de tamanho e, consequentemente, de peso, oscilando entre 50 e 1200 gramas cada uma, fenômeno esse que depende da potência da árvore. O mesmo processo de fura se repete diariamente, completandose dois e três “leite”. Ao processo de repetição, chama-se “dobrar borracha” ou “passar leite”. Mas, para dobrar já não necessita de cavar. Basta remover a lapa para fora do buraco, golpear novamente e mais abaixo a “batata” da maniçobeira, forrar e pronto (RIBEIRO, s/d, p. 49)

Revitalizando tradições com coragem e inovação
Este relato revela como os maniçobeiros transformaram cavernas em lares e comunidades prósperas, valorizando o látex da maniçoba.

Depoimentos e Opiniões dos Maniçobeiros
Aqui compartilhamos histórias reais de famílias maniçobeiras, destacando suas jornadas e conquistas na Serra Branca.
Viver na Serra Branca foi um desafio transformador que fortaleceu nossa cultura e união familiar.

Osvaldo Sabino
Meu bisavô mais meus avós foi quem descobriu a Serra Branca. Isso foi a muitos e muitos anos atrás (risos). Quando eles chegaram pra lá eu num era nascido ainda não. Meus pais é quem contava a chegada deles pra lá. Eles foram daqui do Zabelê pra lá fazendo uma pinicada, até que saíram lá. E as águas acabavam no meio da chapada, uns voltava pra pegar água e os outro ia seguindo a pinicada até que chegaram lá. Quando eles chegaram lá que desceram lá pras toca, que é a toca do João Sabino, que era do Zé Biscoito, eu sou da família dos Biscoito (risos). O Zé Biscoito era pai do Zé Sabino, pai do João Sabino, que é meu pai. Zé Biscoito é meu bisavô. Aí quando eles chegaram lá na Toca do João Sabino, que hoje é conhecida como toca do João Sabino, eles iam descendo de cima da chapada, os índio ia descendo com uma onça. Aí eles fizeram fogo nos índio, os índios correram e deixaram a onça e eles pegaram a onça. Foi daí pra frente que foi o descobrimento da Serra Branca
(Osvaldo Sabino, 14/03/2014).
A dedicação e coragem desses trabalhadores revelam a riqueza histórica e cultural da região.

Júlio Macêdo
Que essas toca era assim, na época de 15, por aí assim, disse que teve umas maniçoba por aí assim e veio o pessoal do Pernambuco e do Ceará trabalhar nas maniçoba e aí acabou o preço, aí voltaram, foram embora. Mas, ficou o véi PioHonório, que é avô desse Nilson bem aqui, o véi Joãzin, meu pai já tinha vindo do Pernambuco atrás dessa maniçoba e ficou nesse João Costa, furando maniçoba praquele lado. Aí quando a maniçoba acabaram os preços ficaram essas pessoas, num foram embora, ficaram aí morano. O Mariano Pereira (Toca da Igrejinha) … só 39 esses é que eu sei … o João Sabino também morava lá. Era os morador que tinha
nessas tocas (…), Quando ela começou de novo aí encheu de gente (Júlio Macêdo,
24/03/2014).
A experiência de viver nas cavernas adaptadas nos ensinou resiliência e amor à terra.

Delmira da Silva
Deixava os mininin véi em casa, ia deixar de comer pronto pros bixin comer e tocava no mundo. Quando a gente chegava ia fazer mais de comer pra comer. Pra furar maniçoba a gente tinha que fazer um beijuzin, botava numa capanguinha, uma cabacinha d‟água e levava pros mato. Enquanto a gente tivesse guentando tava furando, quando num guentava mais comia aquele beijuzin e era outra tarefada que nós ia furar.. furava a maniçoba. Eu achava bom num era nem furar, achava bom era no dia de panhar, furava com espeto, ia pegando as lapas e botando a tira a colo, ate que panhava tudo. Eu achava bom demais (Delmira da Silva, 17/03/2014)!

