O nome do antigo povoado de Zabelê, onde hoje se localiza a Serra da Capivara, tem origem indígena. A palavra “Zabelê” é derivada do tupi-guarani. A região é conhecida por sua riqueza arqueológica e histórica, abrigando sítios pré-históricos importantes, e o nome reflete a presença e influência das populações indígenas que habitavam a área muito antes da colonização europeia.
O povoado original do Zabelê formou-se no final do século XIX ,dentro da área do atual Parque Nacional da Serra da Capivara, no estado do Piauí.

A comunidade surgiu a partir de atividades como a pecuária extensiva e a extração da maniçoba. O nome foi dado devido à grande quantidade de árvores de juazeiro na região, cujos frutos caíam no chão e serviam de alimento para a zabelê, uma ave típica do local.

O juazeiro (Ziziphus joazeiro) é um dos maiores símbolos de resistência do semiárido brasileiro. Ele garante a sobrevivência de sertanejos e animais durante as secas prolongadas.

fruto do juazeiro, conhecido popularmente como juá, é uma pequena esfera amarelada que desempenha um papel vital no ecossistema e na cultura do semiárido.
Os Primeiros Habitantes
O antigo povoado Zabelê formou-se no final do século XIX, a partir de atividades como a criação de gado extensiva e, posteriormente, a extração de borracha da maniçoba. A comunidade abrigava cerca de duzentas pessoas que viviam da agricultura de subsistência e do extrativismo na região de caatinga.

Os primeiros moradores do antigo povoado do Zabelê foram famílias de agricultores, caçadores, vaqueiros e extrativistas de maniçoba, além de populações que buscavam melhores condições de vida na caatinga nordestina.


A Dinastia Familiar dos Paes Landim
- O grande marco genealógico do povoado está ligado aos descendentes do velho Victorino Paes Landim.
- Ele é considerado o patriarca da região e os seus laços familiares estruturaram a comunidade por gerações, ditando as regras de parentesco e herança das terras. Segundo a memória local e registros históricos de terras que datam de 1829, ele recebeu posses do governo colonial (como as fazendas Serra Nova, Serra Talhada e Boqueirãozinho) após atuar na violenta expulsão e “conquista” das populações indígenas que habitavam as serras.
Maniçobeiros e Vaqueiros
- A comunidade era composta por famílias de trabalhadores rurais dedicados ao pastoreio extensivo de gado.
- No final do século XIX e início do século XX, com o boom da borracha silvestre, a população cresceu com a chegada dos maniçobeiros — pessoas que se embrenhavam na mata densa da serra para extrair o látex da maniçoba.
Retirantes e pessoas em busca de refúgio
- Registros históricos preservados pela Biblioteca do IBGE apontam que, por volta do ano 1900, os primeiros habitantes a desbravar a área viram no local um ponto de proteção devido aos enormes juazeiros e ao difícil acesso.
- O perfil inicial incluía foragidos das secas extremas, de outras províncias do Nordeste (como Pernambuco e Bahia) e camponeses sem-terra que encontraram ali um território livre para viver da agricultura de subsistência e da caça.
Esses moradores desenvolveram uma relação profunda e mística de pertencimento com o território, acumulando um vasto conhecimento sobre a fauna e a flora locais. Décadas mais tarde, esse conhecimento tradicional dos descendentes do Zabelê foi fundamental para guiar os arqueólogos nas descobertas dos famosos sítios arqueológicos da Serra da Capivara.
A criação do Parque Nacional da Serra da Capivara em 1979 e a subsequente expulsão forçada dos moradores na década de 1980 geraram um profundo trauma social e cultural para as linhagens tradicionais do Zabelê.
O decreto federal ignorou a existência da comunidade, tratando a área como se fosse um vazio demográfico. Quando a fiscalização ambiental e os órgãos governamentais iniciaram o processo de desocupação, o impacto atingiu diretamente a sobrevivência física e a identidade dessas famílias.
A criação do Parque Nacional da Serra da Capivara em 1979 e a subsequente expulsão forçada dos moradores na década de 1980 geraram um profundo trauma social e cultural para as linhagens tradicionais do Zabelê.
Perda de Terras e Indenizações Irrisórias
Falta de títulos: Como muitos eram posseiros históricos sem escrituras formais registradas em cartórios modernos, o Estado não reconheceu o direito de propriedade plena.
- Indenizações baixas: As compensações financeiras pagas pelo governo foram extremamente baixas e focadas apenas nas “benfeitorias” (casas de taipa, roçados, pequenos poços), ignorando o valor real do território. O dinheiro recebido foi insuficiente para que as famílias comprassem terras equivalentes em outras regiões.
Demolição das Casas e Apagamento Material
Como o modelo de preservação adotado na época exigia a “proteção integral” (sem presença humana residente), o Ibama iniciou a desativação do povoado.
- Casas destruídas: Praticamente todas as residências e estruturas comunitárias foram demolidas para evitar o retorno dos moradores.
- Marcos de resistência: Apenas a antiga escola e o cemitério da comunidade foram poupados e permanecem de pé dentro dos limites do Parque Nacional até hoje, servindo como os últimos testemunhos materiais do antigo povoado.

Dispersão e Perda de Identidade (O Êxodo)
Sem terras e sem indenizações justas, a comunidade sofreu uma fragmentação imediata.
- Marginalização urbana: Muitas famílias migraram para a periferia da zona urbana de São Raimundo Nonato, passando a viver em condições de extrema vulnerabilidade social, já que os vaqueiros e agricultores não tinham qualificação para o mercado de trabalho das cidades.
- Criminalização dos costumes: Práticas ancestrais que garantiam a alimentação e a cultura das linhagens — como a caça de subsistência, a coleta de plantas medicinais e as fogueiras — passaram a ser tratadas como crimes ambientais pela fiscalização.
O Conflito com a Ciência Pré-Histórica
Ironicamente, os moradores que haviam guiado os pesquisadores franceses e brasileiros até as pinturas rupestres viram a própria ciência se voltar contra o seu modo de vida. Gerou-se um ressentimento histórico: para a comunidade, o patrimônio arqueológico (as pinturas) passou a ser visto por muito tempo como o “culpado” pela perda de suas casas e pela destruição de seu passado.
A Retomada no Novo Zabelê

Após anos de dispersão e luta, parte dessas linhagens conseguiu ser reassentada pelo INCRA na Fazenda Lagoa, dando origem ao Assentamento Novo Zabelê. Nas últimas décadas, projetos de Arqueologia Pública e a fundação do Museu do Antigo Zabelê ajudaram a mitigar esse trauma. O museu permitiu que os descendentes resgatassem seu orgulho e reescrevessem sua própria versão da história da Serra da Capivara.


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