
Eu acho que é uma questão muito humana de todos nós. Tudo tem o fechamento de um ciclo. O processo de desapropriação foi um processo muito traumático. Ele se arrastou por muito tempo, ele continua ainda, as mágoas existem, ainda existem as pessoas que não foram indenizadas. Então, enquanto esse processo todo não estiver concluído a gente não pode dizer que é unanimidade, que as pessoas não têm mais as mágoas. Têm, as pessoas falam, as pessoas contam, as pessoas choram ainda, mas não foi resolvido. O Estado não conseguiu resolver isso e eles não conseguiram se libertar disso. E isso foi passando para a outra geração. Eu sou uma das pessoas dessa geração, a minha família foi desapropriada. Meu pai depois que eu assumi o ICMBIO, eu acho curioso que todo dia ele pergunta: E aí como é que está nosso processo? Eu vejo que isto não é uma coisa simples, isto não aconteceu só aqui, não é? Acontece em várias outras partes, em todos. Mas existe sim, isto não foi resolvido, não foi feito o pedido de desculpa, um simples pedido de desculpa. ( PARENTE, José Clementino Alvez, conhecido como Quelé. Entrevista concedida a Sousa (2010), no assentamento Lagoa – Novo Zabelê, em 25 maio 2007 )
A desocupação do antigo povoado Zabelê, localizado dentro do atual perímetro do Parque Nacional Serra da Capivara em São Raimundo Nonato (PI), ocorreu na década de 1980. O deslocamento forçado gerou profundos impactos sociais, culturais e econômicos na região:
- Perda de Território e Modo de Vida: Os moradores, que sobreviviam da agricultura de subsistência, extrativismo da maniçoba e criação de animais, foram severamente impactados ao serem afastados de sua principal fonte de sustento.
- Dispersão e Empobrecimento: Sem reassentamento imediato, muitas famílias ficaram anos vivendo em condições precárias na periferia de São Raimundo Nonato. Várias perderam o dinheiro das indenizações e acabaram migrando para grandes centros, como São Paulo e Brasília.
- Desenraizamento Cultural: A mudança forçada desestruturou as dinâmicas sociais da comunidade, fazendo com que costumes, ritos e a própria memória do antigo povoado se perdessem, especialmente entre as gerações mais jovens.

